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Foto: Uki Goñi afirma que a Cruz Vermelha, ainda hoje, mantém uma política de restrição aos arquivos da época da II Guerra

JORNAL ESTADO DE MINAS
Belo Horizonte, 08 de Janeiro de 2005
SUPLEMENTO PENSAR
ENTREVISTA

O ovo da serpente
Jornalista argentino Uki Goñi revela em seu novo livro, “A verdadeira Odessa”, como funcionava a rede que garantia a fuga dos nazistas para a Argentina de Perón. Perón também teve contatos estreitos com integralistas brasileiros da linha de Plínio Salgado.
Eduardo Szklarz, Especial para o EM

Buenos Aires – Poucos livros inspiraram tanto o imaginário coletivo como o romance O dossiê Odessa, do escritor inglês Frederick Forsyth. O livro mostra um grupo de antigos homens das SS reunidos numa organização secreta chamada Odessa, que busca livrar os camaradas da justiça e estabelecer o Quarto Reich. Durante os últimos 30 anos, essa história viveu na fronteira entre a fantasia e a realidade. Sabia-se da notória presença na Argentina de nazistas como Adolf Eichmann, o arquiteto da “solução final”, e Joseph Mengele, o médico de Aushwitz. Mas faltava saber como eles haviam chegado lá.

O segredo é agora desvendado no livro A verdadeira Odessa, do jornalista argentino Uki Goñi. Durante seis anos, ele realizou entrevistas e pesquisou em arquivos da inteligência americana, da Cruz Vermelha e da Europa para detalhar o que até então permanecia apenas como suspeita: logo após a II Guerra Mundial, o Vaticano, a Igreja Católica argentina e o governo de Juan Domingo Perón firmaram um acordo secreto para viabilizar a fuga de centenas de criminosos de guerra alemães, franceses, belgas e croatas para Buenos Aires. Nesta entrevista, ele explica como a rede funcionava.

ESTADO DE MINAS – Como nasceu a “verdadeira Odessa”?
Uki Goñi – Creio que da relação antiga entre os nazistas e o general Perón. O serviço secreto das SS (tropa responsável pelo aparelho de repressão do Reich) na América do Sul ajudou Perón em seus planos de organizar golpes de estado no Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Chile. A idéia era formar um bloco sul-americano que fosse amigável ao nazismo e, ao mesmo tempo, favorecesse o domínio argentino na América do Sul. No caso da Bolívia, esse plano teve êxito com o golpe de Estado em 1943, organizado por agentes nazistas, Perón e nacionalistas bolivianos. Perón também teve contatos estreitos com integralistas brasileiros da linha de Plínio Salgado. Com a derrota alemã na guerra, entretanto, os golpes não puderam ser levados a cabo.

Como o plano de fuga foi colocado em prática?
UG – Nos últimos dias da guerra, entram em cena dois argentinos com dupla nacionalidade. Um deles é o alemão nascido na Argentina Carlos Fuldner. Ex-capitão das SS, Fuldner foi mandado em 1945 a Madri e de lá seguiu a Buenos Aires. Em 1948, voltou à Europa como agente especial de Perón para criar escritórios de resgate de nazistas em Gênova e Berna. O outro é o franco-argentino Charles Lesca, antigo conhecido de Perón que organizou em Madri a primeira rota de fuga de agentes das SS. Esse foi o lado político do plano. Havia também o lado da Igreja Católica: em fins de 1946, começa a se armar uma linha de fuga para colaboradores franceses, belgas e croatas. Por que esses foram os primeiros a escapar? Porque eram nazistas católicos. Haviam conseguido conciliar o nazismo e o catolicismo. Por isso, a Igreja Católica argentina armou o primeiro plano de fuga em combinação com o Vaticano. Em 1947 e 48, o plano começa a abarcar os criminosos mais conhecidos, entre eles Adolf Eichmann, Joseph Mengele e Erich Priebke (oficial das SS responsável pelo massacre de civis italianos em Roma).

Havia uma ideologia comum entre os participantes do plano?
UG – Os nazistas da SS eram inimigos do catolicismo e do Vaticano. Eram pagãos e, se houvessem ganhado a guerra, provavelmente teriam acabado com o catolicismo. Para muitos nacionalistas católicos argentinos, porém, o nazismo de alguma maneira purificava o Velho Continente ao acabar com o que eles consideravam seus verdadeiros inimigos: o capitalismo e o comunismo. Em sua visão, ambos eram maus porque eram materialistas. E se o nazismo erradicasse o comunismo e o capitalismo na Europa, abriria espaço para seu grande objetivo, que era levar o mundo a uma situação anterior à da Revolução Francesa. Por isso é tão importante o papel do enviado argentino Juan Carlos Goyeneche, um nacionalista católico que se reuniu com Ribbentrop (ministro do Exterior), Goebbels (ministro da propaganda), Himmler (chefe das SS) e, aparentemente, com Hitler. Goyeneche disse a Himmler que se os nazistas quisessem o apoio dos países sul-americanos, teriam que se conciliar com o catolicismo porque a América é um continente muito católico. Como Goyeneche se encontraria com o Papa Pio XII, Himmler lhe pediu que dissesse ao pontífice que estava aberto a temas religiosos. Terminada a guerra, Perón e alguns agentes do Vaticano estavam convencidos de que haveria uma terceira guerra mundial, em 1948 ou 49, desta vez entre Moscou e Washington. Portanto, a idéia era que os nazistas voltassem à Europa para lutar contra o comunismo.

Como funcionava a rede?
UG – Para entendê-la, é importante ler os arquivos de todos os países porque os interesses de cada parte se cruzavam. De 1945 a 1947, os aliados tinham grande interesse em capturar criminosos de guerra e levá-los a julgamento. Muitos haviam se refugiado na Itália. Mas, com o início da Guerra Fria, os aliados perdem o interesse, especialmente em criminosos croatas, tchecos e de outros países que caíram na órbita soviética. Em 1947, arma-se um pacto secreto entre o Vaticano, Perón e Washington, através do qual o Vaticano ajuda os criminosos a escapar para a Argentina, enquanto Washington e Londres “olham para o outro lado”. O objetivo era que esses criminosos, muitos deles católicos praticantes, não fossem entregues a governos comunistas.

Qual era o papel de cada parte?
UG – O Vaticano se encarregava de dar passaportes com pseudônimos aos criminosos de guerra. Perón lhes outorgava vistos para desembarcar na Argentina com nomes falsos. Através de contatos no Vaticano, os criminosos conseguiam passaportes da Cruz Vermelha. Também recebiam dinheiro de sacerdotes e bispos em Roma para a passagem. Os americanos e ingleses não intervinham no processo. Já as autoridades suíças permitiram trânsito ilegal dos criminosos através de seu território.

Qual era o interesse de cada um?
UG – Perón considerava que o Julgamento de Nuremberg era uma das maiores infâmias da história, como disse em entrevistas no fim da vida. Também queria ter a tecnologia alemã em aviação e armamento. A terceira razão foi monetária. Em sua campanha presidencial, Perón recebeu apoio de homens de negócio nazistas da Argentina e lhes devia esse favor. Assim como Carlos Menem recebeu contribuições de países árabes e isso criou problemas em seu governo, Perón recebeu dinheiro de homens de negócio nazistas. A razão preponderante do Vaticano era o anticomunismo. Já os americanos e ingleses queriam um lugar para enviar essa gente e tirar o problema das costas.

Qual seria o papel da Argentina em caso de vitória alemã?
UG – Altos oficiais do III Reich asseguraram a Perón que a Argentina, devido à sua lealdade ao nazismo durante a guerra, receberia tratamento econômico preferencial. Mussolini e Ribbentrop disseram a ele que provavelmente reconheceriam a soberania argentina sobre as ilhas Malvinas e a ligação entre o país e a Espanha. A América do Sul então ficaria sob tutela da Argentina. Isso é o que estava no imaginário de Perón. Mas quando lemos os interrogatórios feitos pelos aliados depois da guerra, os nazistas dizem: “Estávamos em Berlim com bombas caindo sobre nossas cabeças. Sabíamos que perderíamos a guerra e recebíamos mensagens de nossos agentes na Argentina, dizendo que Perón continuava falando de uma possível vitória alemã em 1944. Aí nos demos conta de que estavam todos loucos na Argentina.”

Como você teve acesso aos arquivos da Cruz Vermelha?
UG – Ela sempre se recusou a abrir os arquivos sobre os passaportes. Inclusive diz que não são passaportes, mas documentos de viagem, o que é a mesma coisa. Já havia aberto os documentos de Eichmann, Mengele e outros poucos criminosos, mas faltavam muitos. Eu lhe passei uma lista, ela se recusou, até que lhe mostrei que se tratava de criminosos de guerra condenados em julgamento e que, portanto, não podia se negar. E assim consegui que ela abrisse oito documentos inéditos. Com esse êxito, tentei conseguir mais. Solicitei a documentação de criminosos franceses e belgas que também tinham pedidos de captura internacional. Mas ela não aceitou. Ou seja, a Cruz Vermelha ainda mantém uma política de controle dos arquivos.

Como foi a investigação na Argentina?
UG – Aqui o caso é mais extremo. O país queimou grande quantidade de documentos de imigrações e era impossível ter acesso a documentos da polícia e da inteligência. Quando o livro saiu nos EUA, o Centro Simon Wiesenthal (organização não-governamental que já levou à justiça centenas de criminosos de guerra) me disse que mandaria ao governo argentino um pedido de abertura de documentação. Fiz uma lista de 60 documentos, entre eles uma ordem secreta de 1938 que proibia o ingresso de judeus à Argentina, além dos expedientes de entrada de Eichmann, Mengele, Priebke. Esse pedido foi feito em 2002. Ano passado, o governo aceitou abrir arquivos de criminosos croatas e belgas e pude encontrar números de expediente de entrada desses criminosos.

Como sabia da ordem secreta contra os judeus?
UG – Sabia porque meu avô era um diplomata argentino durante a II Guerra que não só a conhecia, como era um de seus mais terríveis aplicadores. Quando chegava um judeu ao consulado pedindo-lhe visto, ele sempre negava. Sei pelas histórias da família de judeus que lhe ofereceram jóias e até de uma mulher que tirou a roupa e lhe ofereceu o corpo para poder fugir do nazismo, mas ele também negou o visto. Durante a investigação, a historiadora argentina Beatriz Gurevich encontrou uma cópia dessa ordem num lugar secreto. Eu disse onde estava a original ao chanceler argentino, Rafael Bielsa, e ele prometeu torná-la pública. Bielsa também precisa derrogá-la porque, embora não seja mais aplicada, ela segue em vigência.

Por que a Argentina continua fazendo silêncio sobre temas que já estão comprovados?
UG – Em grande parte, porque esses temas tocam nas figuras de Perón e Evita. O peronismo é a força dominante e quase excludente na Argentina. Apesar da geração de novos peronistas, que sofreram a ditadura e não têm essa imagem quase santa de Perón, ainda há muita resistência.

Como tem sido a recepção do livro?
UG – Para mim, esse é um livro de investigação histórica, e assim foi recebido na Inglaterra e nos EUA. Foram páginas inteiras em jornais como Financial Times e The Observer. Na Itália houve ainda maior repercussão, o que me surpreendeu porque não trabalhei com arquivos italianos. O bispo de Gênova formou uma comissão para investigar as afirmações. No Parlamento italiano, um grupo de legisladores pediu ao primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, que abra arquivos da fuga na Itália. Erich Priebke, ex-capitão das SS que cumpre pena de reclusão perpétua em Roma, entrou na justiça contra mim e minha editora. Pediu o fim da circulação do livro na Itália e uma compensação financeira, alegando que há declarações falsas no livro. Enviei toda minha documentação à Itália e pude provar que eram todas certas.

E na Argentina?
UG – Foi onde houve a menor repercussão. Nenhum historiador me procurou para pedir documentos. Não me convidaram para palestras, como fiz em outros países. Aqui há uma espécie de alergia ao tema na imprensa, nos meios acadêmicos e no governo. Muita gente importante me disse que, com o livro, eu faço a Argentina “ficar mal”. Respondo que o que a faz ficar mal é tampar essa realidade. Se um país está disposto abrir arquivos sobre nazismo e ditadura, essa é uma garantia de que a democracia triunfou. Felizmente, as vendas mostram a grande recepção do livro entre o público em geral.

O que o motivou a passar seis anos nessa investigação? Foi o que disse sobre seu avô?
UG – Pode ser. Sou um argentino atípico: minha família é argentina, mas nasci nos EUA e praticamente não vivi aqui até os 21 anos. Posso ver a Argentina como um estrangeiro – ou seja, não me enganar sobre o que ela é – e, ao mesmo tempo, vê-la de dentro, como um argentino. Durante a ditadura, eu pensava: como pode um país de população intelectualmente tão refinada ter chegado a semelhante selvageria? Percebi que há uma cultura do silêncio e que, se pudesse quebrar um segredo e demonstrar que ele efetivamente existe, seria mais fácil fazer com que as pessoas o aceitassem. E o maior segredo era o nazismo. Quis mostrar que não se pode manter algo oculto para sempre. No final, fiquei surpreendido pelo efeito do livro em outros países, inclusive o Brasil. O Vaticano falou em abrir a documentação. O ideal seria que ela fosse aberta enquanto algumas vítimas estão vivas. Não seria justiça, mas um ato reparador. Se a documentação for aberta quando já não houver nenhuma vítima, será como agregar um insulto ao crime que cometeram.


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