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O GLOBO
21 de novembro de 2004
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01
A sedução nazista nas ditaduras do Cone Sul

No elegante salão do Alvear Hotel, em Buenos Aires, o coronel Ramón Camps, chefe de polícia da capital, encarou a platéia de jornalistas estrangeiros. Estava pronto para apresentar a prova do envolvimento de seu prisioneiro em uma conspiração para destruir a Argentina cristã e familiar. Mandou rodar a fita com a gravação do interrogatório.

- O senhor admite que é judeu? - ouviu-se Camps rosnar.

- Sou... sim - respondeu o prisioneiro Jacobo Timerman, jornalista, num sussurro apavorado.

- Então, o senhor é sionista! - gritou Camps.

- Bem... não sei, talvez.. - disse Timerman.

Camps parou a gravação e lançou um olhar de triunfo aos repórteres.

- Como podem ver, ele admite que é sionista!

Os judeus foram alvo preferencial na ditadura

Aquele inverno de 1977 ficou indelével na memória de Uki Goñi, então jovem repórter do "Buenos Aires Herald", jornal dirigido à comunidade britânica. Pelas décadas seguintes ele tentou compreender a Argentina da ditadura militar com seus 304 campos de detenção, de onde desapareceram 8.956 pessoas, entre elas 1.296 judeus - 12% do total de presos. A matança foi desproporcional, porque a comunidade judaica não somava mais de 1% da população.

- Eu pensava: não pode ser casualidade o fato de que este país, que deu acolhida a nazistas como Eichmann e Mengele, tenha tido uma ditadura criminosa como foi a argentina.

Não foi fortuita a proteção dada a assassinos como Adolf Eichman, o engenheiro do transporte de judeus para câmaras de gás, e Josef Mengele, o "cientista" que os usava como cobaias, constatou Goñi, depois de seis anos revirando arquivos em dois continentes. Houve uma ação de resgate deliberada do governo Juan Domingo Perón, com a benção do Vaticano.

Dos 480 criminosos de guerra desembarcados em Buenos Aires, ele identificou quase 300. Mapeou-lhes o rastro de conivências até a sede do governo. O resultado da investigação está condensado em 448 páginas do livro "A Verdadeira Odessa" (Editora Record), à venda no Brasil a partir desta semana.

Ao desvendar as fraudes de Perón e seus coronéis, a partir da II Guerra, Uki Goñi começou a perceber as raízes do anti-semitismo peculiar da ditadura militar de 1976 a 1983.

- No início, eu esperava encontrar provas da influência nazista sobre as políticas assassinas da ditadura. Mas a verdade que apareceu era perturbadoramente diferente - conta. - De maneira alguma os nazistas tinham influenciado significativamente os generais genocidas argentinos apenas na década de 1970. A semente maligna estava lá bem antes de eles chegarem.

A sedução totalitária, embalada pelos canhões e embebida no dinheiro do serviço secreto exterior de Hitler, alimentou delírios políticos sobre todo o Cone Sul. Entre outras coisas, um acordo secreto de Perón com Heinrich Himmler, chefe da SS (o núcleo político e militar do partido nazista) para provocar golpes de Estado em Brasil, Bolívia, Uruguai e Paraguai. Pretendiam garantir uma dominação argentino-germânica na América do Sul, cujo mapa passaria a ter apenas cinco países entre o Canal do Panamá e a Patagônia.

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02
Cientistas de Hitler na América do Sul
A herança alemã nos programas nucleares do Brasil e da Argentina

Hitler tentou, mas não chegou a sobreviver ao programa atômico que iniciou. Nos anos seguintes à guerra, os seus cientistas nucleares transitaram pela Argentina e pelo Brasil à caça de oportunidades de avançar nas pesquisas, sob o guarda-chuva político e financeiro das ditaduras da ocasião.

Convidado por Perón, em agosto de 1948, o físico Ronald Ritcher apresentou-lhe uma proposta: desenvolver um programa nuclear a partir da fusão de hidrogênio - alternativo ao dos Estados Unidos, baseado na fissão de urânio enriquecido.

Saiu da Casa Rosada, a sede do governo argentino, com um contrato que lhe garantia o extraordinário salário mensal de US$1.250 (ao câmbio da época), um orçamento milionário, liberdade total para montar sua equipe e uma ilha exclusiva no lago Nahuel Huapi, na região de Bariloche, para construir os laboratórios.

Vinte e nove meses e dezenas de milhões de dólares depois, Perón e Richter posaram juntos para fotografias em Buenos Aires. Diante dos jornalistas, o presidente argentino anunciou o domínio da "reação termonuclear sob condições de controle em escala técnica". Oito semanas mais tarde, o presidente decidiu ir além: revelou que a Argentina preparava uma "bomba de hidrogênio". O delírio prosseguiu por mais três anos. Quando Perón se convenceu de que estava diante de um fiasco tecnológico e científico, abandonou Ritcher nos galpões-laboratório da ilha. Bariloche virou uma aprazível estação turística de inverno, a mais visitada por brasileiros.

Duas décadas depois, uma missão de cientistas alemães desembarcou no Rio de Janeiro, a convite do governo do general Arthur da Costa e Silva. Alfred Boëttcher, diretor do Instituto de Pesquisas Atômicas de Juelich, estava acompanhado de Hans Joos, diretor do Instituto de Física de Hamburgo, e Klaus Wagner, diretor do Instituto de Pesquisas Nucleares de Hamburgo.

Na década de 60, prenúncio do programa brasileiro

Quando partiram, a rádio Havana, de Cuba, revelou que haviam proposto ao Brasil uma parceria em experiências nucleares, proibidas de serem feitas na Alemanha. Com eles começou, de fato, um bailado nuclear Brasil-Alemanha que permitiu à ditadura militar brasileira anunciar, em 1974, um bilionário programa nuclear baseado numa tecnologia que nunca saiu do papel - o enriquecimento de urânio por jato centrífugo.

Na guerra, Boëttcher estivera no núcleo do programa atômico do Reich. Na paz, fez parte da direção da Comissão Atômica Alemã, com salários pagos pelo grupo Degussa.

Ele foi responsável pelo programa de treinamento de cientistas brasileiros agrupados na Nuclebrás, empresa estatal criada pelo regime militar para executar o projeto atômico. - Era uma pessoa afável - lembra Mauricio Grinberg, que chefiou o Departamento de Combustíveis e Materiais Nucleares e a Superintendência de Planejamento de Tecnologia da extinta Nuclebrás. Em algumas ocasiões, Grinberg visitou o colega cientista em sua casa, na Alemanha.

De ascendência judia, Grinberg conta que, como os demais cientistas brasileiros, jamais poderia imaginar que o "cordial" Boëttcher fora um oficial da SS nazista na guerra. Muito menos que em sua ficha constasse passagens de serviço em campos de extermínio de prisioneiros judeus.

(J.C.)

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03
Ecos da marcha marcial nazi-fascista
Gestapo treinou policiais brasileiros e Barbie organizou esquadrão da morte na Bolívia

A marcha marcial nazi-fascista embalou sonhos autoritários, em ritmo diferente, por todo o Cone Sul. Ecoou como suave melodia nos ouvidos de um pedaço da elite civil e militar brasileira, que desde o final do século 19 encantava-se com a possibilidade de um Estado forte e, paradoxalmente, reformista. Ele veio em 1937, no formato do Estado Novo moldado por Getúlio Vargas.

O fascínio pela eficiência das legiões de Hitler levou grupos de militares pró-germânicos a Berlim, em visita oficial, onde foram recebidos com pompa e homenagens. Agentes policiais foram enviados para treinamento na Gestapo. Os influentes generais Eurico Dutra e Góes Monteiro eram vistos como "prussianos".

- Havia uma certa identificação doutrinária, mas a reação liberal no país impediu a difusão e o predomínio dessas idéias totalitárias - comenta o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade de Campinas. - Na Argentina foi muito mais evidente. Os nazi-fascistas brasileiros nem eram anti-semitas.

É preciso abrir os arquivos nacionais, observa o escritor Uki Goñi:

- Muitos nazistas passaram pelo Brasil em fuga. Houve até um que foi preso e depois liberado por ordem do ministro da Justiça- lembra ele.

Era Charles Lesca, franco-argentino preso no Rio. Foi agente da contra-espionagem do Reich na França. Condenado à morte, fugiu. Morreu em paz, em Buenos Aires. Outros sobreviveram e transitaram pelas ditaduras dos anos 70 e 80. O ex-chefe da Gestapo Klaus Barbie, "o carniceiro de Lyon", foi contratado para organizar um esquadrão da morte na Bolívia. Hans-Dietrich Rudel, herói da Luftwaffe, debulhou-se em negociações entre Perón e o general paraguaio Alfredo Stroessner que resultaram no acordo para construção da Hidrelétrica de Yaciretá. Nos intervalos, visitava Josef Mengele, escondido no Brasil onde morreu.

Dinheiro nunca foi problema para nenhum dos refugiados nazistas. Houve transferência de capitais e até ouro físico. Além de apoios estratégicos, quase sempre coordenados por Ludwig Freud, milionário alemão na Argentina que trabalhava para a espionagem alemã e financiava Perón.

Emblemas do pesadelo nazista também pontuaram em cenas das ditaduras latinas nos anos 70. Presos se repetem na citação de suásticas pintadas em paredes de cárceres argentinos. No Dops paulista, o delegado Sérgio Paranhos Fleury permitiu-se a um ritual: recebia presos em sua sala com um capacete de aço do Exército nazista na cabeça. Às vezes, os agentes até o saudavam, com o braço direito esticado: "Heil!". E Fleury retribuía, sorrindo: "Heil!".

(Jose Casado)


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