UkiNet

Folha de Sao Paulo
Terça-feira, 23 de novembro de 2004

Perón ajudou Mengele, afirma escritor argentino
Uki Goñi afirma em livro que governo argentino auxiliou rede de colaboradores foragidos de Hitler
Silvana Arantes de Buenos Aires

Gregor. Helmut Gregor é a primeira identidade falsa adotada pelo médico alemão Josef Mengele (1911-1979) na Argentina, onde viveu antes de fugir para o Paraguai e o Brasil, último destino de sua bem-sucedida escapada dos tribunais que julgaram os criminosos de guerra nazistas.

É também como Gregor que Mengele surge nas memórias do presidente argentino Juan Domingo Perón (1895-1974), que o recebeu em sua residência oficial e ouviu com interesse seus relatos a respeito de experimentos científicos para a reprodução induzida de gêmeos.

A ligação entre Mengele e Perón; as relações do governo argentino com a rede de fuga de criminosos nazistas para a América do Sul (batizada Odessa); o papel do Vaticano nos subterfúgios que fizeram com que criminosos de guerra conseguir novos passaportes, atravessar fronteiras e viver clandestinos na Argentina são o tema de "A Verdadeira Odessa" (editora Record, 2004, 448 págs.), de Uki Goñi.

O livro é resultado de seis anos de pesquisa em arquivos oficiais e particulares empreendida pelo escritor argentino. Goñi, 51, vasculhou documentos em seu país, nos EUA, na Suíça, na Bélgica e na Inglaterra. "Falta uma investigação similar no Brasil", diz, acrescentando que os arquivos pessoais de Mengele depositados na Polícia Federal, em São Paulo, e revelados no último domingo pela Folha podem ser "importantíssimos" no aprofundamento das pesquisas sobre a rede Odessa.

No próximo dia 29, Goñi participa de solenidade de lançamento de "A Verdadeira Odessa", na Academia Brasileira de Letras, no Rio. Na Argentina, afirma, o silêncio predomina como reação ao seu livro, que surgiu do desejo de investigar os mecanismos de "segredo e negação" na história política recente de seu país.

Mais que isso, o autor buscava também "um nexo" entre a ditadura militar Argentina [1976-1983] e o fato de o país ter sido o destino do maior número de criminosos de guerra nazistas. Mais de 300 personagens do segundo escalão do regime encontraram abrigo na Argentina peronista.

No último domingo, Goñi recebeu a Folha em sua casa, em Buenos Aires, para uma conversa sobre a singularidade de Mengele entre os criminosos de guerra; a conformação da rede Odessa e o atual debate sobre a abertura de arquivos das ditaduras militares na América Latina, que, para o escritor, representam um teste à solidez das democracias e à transparências dos atuais governos. Leia a seguir trechos da entrevista.

Folha - O sr. diz em seu livro que Mengele "merece um status único entre os assassinos nazistas", por sua crueldade. Em que se baseia para afirmar isso?
Uki Goñi - Mengele é, sem dúvida, um personagem singular entre os criminosos nazistas. Há basicamente duas razões pelas quais ele é mais lembrado do que outros. A principal é que, quando os trens chegavam a Auschwitz, ele era o médico encarregado de selecionar quem iria para a câmara de gás e quem sobreviveria para desempenhar trabalhos forçados. Ficou marcado na memória dos sobreviventes de Auschwitz, como o primeiro rosto que viram. A outra razão é porque estava totalmente louco, querendo, por meio de seus experimentos com gêmeos, encontrar um modo de fazer com que todas as mulheres tivessem gêmeos, para incrementar a raça germânica pura. Tudo isso o converte num personagem extremamente atraente, além de falar muito de nós. Estamos acostumados a pensar que, com a educação, nos tornamos imunes de cometer esse tipo de crime. Mas Mengele continua nos dizendo que não. Que não importa quanta educação nem quanto dinheiro se tenha para estar livre da crueldade em estado puro.

Folha - Para que a existência da rede de fuga de nazistas para a América do Sul fique comprovada falta descobrir mais documentos além dos que o sr. pesquisou?
Uki Goñi - Na Argentina, encontrei documentos que provam que Perón teve reuniões com criminosos de guerra na Casa Rosada [sede do governo], em que se montou uma rede de fuga entre o governo argentino e os nazistas. Nos Estados Unidos, encontrei documentação que demonstra como, nos últimos dias da guerra, começou a ser desenhada a rede de fuga entre Berlim e Madri, com argentinos envolvidos. Na Suíça, encontrei documentação que demonstram como Perón fez um acordo para que os nazistas fossem da Alemanha para a Suíça e, de lá, seguissem diretamente para a Argentina, ou passassem antes pela Itália. Encontrei mais documentos na Bélgica e em Londres e pude comprovar, com documentos oficiais, que havia uma rede de fuga composta por ex-membros da SS, pelo governo argentino, com ajuda do governo suíço e apoio do Vaticano. Para mim, está historicamente comprovado. Mas esse é um assunto muito controverso.

Folha - A que se deve a decadência financeira de Mengele?
Uki Goñi - Em 1960, quando os israelenses capturam Eichmann na Argentina, o nome de Mengele começa a aparecer na imprensa, ele se dá conta de que já não está seguro na Argentina e vai ao Paraguai. Com a divulgação pública de seus crimes, protegê-lo passou a ser um problema para a sua família na Alemanha. Quando ele vai para o Brasil, o dinheiro da Alemanha demora cada vez mais a chegar, até que desaparece.

Folha - Na sua opinião, qual é a importância dos arquivos de Mengele revelados pela Folha?
Uki Goñi - Não conheço o material, mas pode ser importantíssimo, especialmente se incluir diários de Mengele, algum relato sobre o período que esteve em Auschwitz e qualquer correspondência sobre seus possíveis vínculos com a rede de fuga.


UkiNet 2004