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Perón ajudou Mengele, afirma escritor argentino Gregor. Helmut Gregor é a primeira identidade falsa adotada pelo médico alemão Josef Mengele (1911-1979) na Argentina, onde viveu antes de fugir para o Paraguai e o Brasil, último destino de sua bem-sucedida escapada dos tribunais que julgaram os criminosos de guerra nazistas. É também como Gregor que Mengele surge nas memórias do presidente argentino Juan Domingo Perón (1895-1974), que o recebeu em sua residência oficial e ouviu com interesse seus relatos a respeito de experimentos científicos para a reprodução induzida de gêmeos. A ligação entre Mengele e Perón; as relações do governo argentino com a rede de fuga de criminosos nazistas para a América do Sul (batizada Odessa); o papel do Vaticano nos subterfúgios que fizeram com que criminosos de guerra conseguir novos passaportes, atravessar fronteiras e viver clandestinos na Argentina são o tema de "A Verdadeira Odessa" (editora Record, 2004, 448 págs.), de Uki Goñi. O livro é resultado de seis anos de pesquisa em arquivos oficiais e particulares empreendida pelo escritor argentino. Goñi, 51, vasculhou documentos em seu país, nos EUA, na Suíça, na Bélgica e na Inglaterra. "Falta uma investigação similar no Brasil", diz, acrescentando que os arquivos pessoais de Mengele depositados na Polícia Federal, em São Paulo, e revelados no último domingo pela Folha podem ser "importantíssimos" no aprofundamento das pesquisas sobre a rede Odessa. No próximo dia 29, Goñi participa de solenidade de lançamento de "A Verdadeira Odessa", na Academia Brasileira de Letras, no Rio. Na Argentina, afirma, o silêncio predomina como reação ao seu livro, que surgiu do desejo de investigar os mecanismos de "segredo e negação" na história política recente de seu país. Mais que isso, o autor buscava também "um nexo" entre a ditadura militar Argentina [1976-1983] e o fato de o país ter sido o destino do maior número de criminosos de guerra nazistas. Mais de 300 personagens do segundo escalão do regime encontraram abrigo na Argentina peronista. No último domingo, Goñi recebeu a Folha em sua casa, em Buenos Aires, para uma conversa sobre a singularidade de Mengele entre os criminosos de guerra; a conformação da rede Odessa e o atual debate sobre a abertura de arquivos das ditaduras militares na América Latina, que, para o escritor, representam um teste à solidez das democracias e à transparências dos atuais governos. Leia a seguir trechos da entrevista.
Folha - O sr. diz em seu livro que Mengele "merece um status único entre os assassinos nazistas", por sua crueldade. Em que se baseia para afirmar isso?
Folha - Para que a existência da rede de fuga de nazistas para a América do Sul fique comprovada falta descobrir mais documentos além dos que o sr. pesquisou?
Folha - A que se deve a decadência financeira de Mengele?
Folha - Na sua opinião, qual é a importância dos arquivos de Mengele revelados pela Folha? |